Passo Fundo: raízes, história e trajetória política

Localizada no Planalto Médio do Rio Grande do Sul, Passo Fundo consolidou-se ao longo de quase dois séculos como um dos principais centros urbanos do interior gaúcho. Conhecida como “Capital do Norte” e, mais recentemente, como “Capital Nacional da Literatura”, a cidade reúne tradição histórica, dinamismo econômico e forte influência regional nas áreas de educação, saúde e cultura. A sua formação, entretanto, remonta a caminhos tropeiros, disputas territoriais e processos de ocupação que marcaram a fronteira sul-brasileira no século XIX.

Origens: o caminho dos tropeiros e a ocupação do planalto

Antes da presença luso-brasileira, a região era habitada por povos indígenas, sobretudo kaingang, que circulavam pelos campos e matas do planalto. A ocupação efetiva do território começou a partir do século XVIII, quando rotas de tropeiros passaram a ligar os campos de criação do sul aos mercados do sudeste. Um desses pontos de parada ficava às margens de um arroio com águas rasas — um “passo fundo”, denominação que acabou batizando o local.

Entre o final do período colonial e o início do Império, sesmarias foram concedidas a famílias de estancieiros e militares, organizando os primeiros núcleos rurais. A região também foi influenciada pelos conflitos platinos e pelas disputas entre Império do Brasil e territórios vizinhos, o que reforçou a presença militar e o caráter estratégico do planalto.

Da freguesia ao município: a fundação e os primeiros anos

A formação administrativa de Passo Fundo se intensificou na primeira metade do século XIX. Em 1834, foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Passo Fundo, ligada ao município de Cruz Alta. O crescimento econômico e populacional levou, em 1857, à elevação do território à condição de vila e, posteriormente, de município.

A economia local baseava-se na pecuária e na agricultura de subsistência, mas logo se diversificou com o comércio regional e com a chegada de imigrantes, sobretudo italianos e alemães, que contribuíram para a construção de colônias, o desenvolvimento artesanal e o fortalecimento da vida urbana.

No fim do século XIX e início do XX, a chegada da ferrovia consolidou Passo Fundo como entreposto comercial e ponto de circulação de mercadorias e pessoas, ampliando sua influência sobre a rede de cidades do norte do Estado.

Modernização, educação e identidade urbana

Ao longo do século XX, Passo Fundo viveu um processo contínuo de urbanização e modernização. A instalação de escolas confessionais, colégios técnicos e, mais tarde, instituições de ensino superior — com destaque para a Universidade de Passo Fundo — transformou a cidade em polo educacional.

Outro eixo estruturante foi a consolidação do setor de saúde, com hospitais de referência regional e rede de serviços que atraem pacientes de dezenas de municípios. Paralelamente, a atividade industrial e o agronegócio ampliaram a base econômica, mantendo forte articulação com o campo e a logística regional.

Culturalmente, Passo Fundo desenvolveu uma identidade ligada à literatura e à produção intelectual. O tradicional Congresso Brasileiro de Leitura e a Feira do Livro ajudaram a projetar o município nacionalmente e alimentaram o título de “Capital da Literatura”.

Trajetória política: liderança regional e pluralidade ideológica

Desde sua emancipação, a política passo-fundense combina elementos locais — ligados às elites agrárias, comerciantes e profissionais liberais — com a dinâmica partidária estadual e nacional. Na República Velha, predominavam lideranças vinculadas às oligarquias regionais e ao Partido Republicano Rio-Grandense, em consonância com a estrutura política rural do período.

Com a redemocratização pós-1945 e, mais tarde, após 1988, o cenário político tornou-se mais plural. Passo Fundo passou a alternar administrações de diferentes campos ideológicos, refletindo a diversidade social da cidade e sua condição de polo urbano. Prefeitos e vereadores transitaram entre partidos de centro, centro-direita e centro-esquerda, frequentemente priorizando agendas como infraestrutura urbana, saúde regionalizada, educação superior, mobilidade e planejamento territorial.

Nas últimas décadas, a política local também tem dialogado com desafios contemporâneos: expansão urbana, inclusão social, sustentabilidade, inovação econômica e integração metropolitana com municípios vizinhos. Ao mesmo tempo, a cidade mantém forte representação no cenário estadual, com parlamentares e lideranças que projetam sua influência além das fronteiras municipais.

Passo Fundo hoje: tradição e futuro em movimento

No início do século XXI, Passo Fundo reafirma seu papel como cidade-polo do norte gaúcho. Com economia diversificada, forte rede de serviços, produção cultural ativa e trajetória histórica marcada por migrações, trocas e tensões de fronteira, o município combina memória e modernidade.

Suas origens tropeiras, a fundação no século XIX e a evolução política ao longo dos ciclos republicanos ajudam a explicar a cidade que existe hoje: um território de identidades múltiplas, onde história, educação, trabalho e participação pública continuam moldando o presente — e apontando caminhos para o futuro.